Um pouco de história e as considerações gerais desta atividade


 Os "Raids" de cavalaria militar, tática de guerra de incursão rápida em território inimigo, em que a surpresa e a rapidez eram fatores decisivos, significavam fazer até 170 km entre o ataque e a retirada.  Apesar de exigir um condicionamento excepcional dos animais com certeza representava um sacrifício de cavalos enorme.  O pós "raid" não era fácil.  As tribos árabes testavam seus garanhões, em disputas tribais: corria-se o dia inteiro, nas areias do deserto, os que sobravam eram os melhores, o vencedor escolhia os melhores cavalos das tribos rivais. É a seleção pela função. Imaginava-se as perdas.

O enduro eqüestre como conhecemos atualmente surgiu nos Estados Unidos, inicialmente, tentando repetir, o "Poney Express", que percorria cem milhas (cento e sessenta Km) em um dia.  Em 1955, a "Tevis Cup", foi a primeira prova de enduro do mundo.  Como nos Raids e nas corridas dos árabes, vencia quem chegava na frente, mas diferente deles, na "Tevis" se inaugurou o "to finished to win" - o mais importante é terminar - onde o respeito e o cuidado com os cavalos é enorme.

Depois da "Tevis Cup" o enduro eqüestre teve um impulso muito grande nos Estados Unidos, França, Itália, Espanha e Austrália.  Os países em que a equitação de lazer e cavalgadas são tradições e o turismo eqüestre estava em franco desenvolvimento abraçaram o novo esporte.  Hoje, está organizado em mais de oitenta países, nas Américas já são dez países em que o esporte é disputado de forma organizada.

O Enduro Eqüestre tem no Brasil a história do Tropeirismo como coadjuvante, pois o tropeiro foi o primeiro endurista a cruzar nossas fronteiras, hoje o prazer de montar a cavalo por longo tempo com adrenalina proporcionada pela competição, emoldurado pelo contato com a natureza em belas trilhas.  Em um tempo em que a relação do homem com a natureza, e por conseguinte, está desgastada, os esportes ao ar livre ganham mais adeptos, o enduro eqüestre vem ocupando um espaço cada vez maior.  O enduro eqüestre é um esporte ecologicamente saudável

Com o crescimento do novo esporte a FEI (Federação Eqüestre Internacional) estabeleceu uma regulamentação a partir das experiências acumuladas, com regras suficientemente rigorosas que objetivam preservar os cavalos.  O enduro é urna prova em que vence aquele que chega ao final mais rápido, mas com uma característica fundamental: ao tempo gasto na trilha soma-se o tempo necessário para apresentação na equipe veterinária, o "vet-check".

A cada etapa, em torno de vinte quilômetros, há uma verificação feita por veterinários experientes que avaliam a qualidade de movimentação do animal (claudicação), se a freqüência cardíaca e respiratória estão dentro de limites razoáveis, se o cavalo está ou não em vias de ficar exausto, (desidratação, temperatura, motibilidade intestinal, sensibilidade muscular).

Esta simples regra - o cavalo só pode relargar se estiver em plenas condições para tal e é decisivo o tempo gasto para a sua recuperação - transformou as corridas de longa distância em um esporte apaixonante, em que a técnica, a estratégia de prova e a economia de energia para o máximo de rendimento são combinações que exigem muito mais do que montar a cavalo.  Como existe um tempo para apresentação do animal ao "vet-check", (geralmente 20 minutos) o cavaleiro que não fizer uma prova de acordo com as possibilidades do seu cavalo corre o risco de parar no primeiro anel, ou perder tempo demorando para apresentar seu cavalo e comprometendo seu resultado final.

Para o iniciante a prova é um pouco mais que uma cavalgada, mas na medida que avança de categoria em categoria mais exigente será o esporte.  O condicionamento do cavalo deverá ser mais rigoroso, a equitação e preparo físico do cavaleiro fará diferença, o conhecimento sobre a fisiologia do exercício e noções de condicionamento deverá ser maior.

Quando o cavaleiro de clube hípico ou de hospedarias, e até os cavaleiros de final de semana do sítio, descobrem o enduro descobrem também que mexer com cavalo pode ser muito mais prazeroso que o trabalho de pista com alguns obstáculos ou a cavalgada com a cerveja ao final enfim, vão discutir manejo e alimentação, se informar como o ferrageamento ajuda ou não a performance, ou o que é trabalho aeróbio e anaeróbio.

Justamente por combinar a possibilidade de um esporte de lazer com um esporte de alta performance o enduro tem crescido muito rapidamente. É bastante natural em uma prova encontrar uma família disputando várias categorias ou equipes formadas por famílias.  Por isso afirmamos que o enduro eqüestre é lazer e esporte.

Júlio Villas Boas

Júlio Villas Boas é Diretor de Enduro da Federação Eqüestre do Rio deJaneiro e Organizador do Circuito RJ Enduro Eqüestre. Tel: (21) 9611-9793 E-mail: juliovb@bol.com.br